Fundo do baú › 20/03/2012

Não conto!

A ordenação do seminarista Divonzir Fabrício iria acontecer num domingo, por volta de 1979. Para chegarmos a tempo, na madrugada de sábado, em frente ao Calvário, lotamos dois ônibus e viajamos para Campo Mourão, no Paraná, terra natal do Divonzir.

Fomos em caravana com quase sessenta paroquianos participar da Celebração de Ordenação do nosso seminarista passionista, por bastante tempo participante do nosso serviço na periferia do Rio Pequeno e orientador espiritual do círculo de estudos mais antigo do ECC. Chegamos à cidade no inicio da manhã e um dia antes da celebração. Deixamos as malas no hotel. Almoçamos num bom restaurante e tínhamos a tarde livre, pois a ordenação se daria na manhã do dia seguinte. Conhecemos o lar dos seus familiares, com seus pais e parentes transbordando de alegria e honra por um filho da terra, que logo, logo, seria padre. Aqui se iniciava uma nova vida e trinta anos depois ainda está servindo ao Senhor no interior de Estado do Rio de Janeiro, mas quando pode, participa das reuniões de círculo do grupo AAA do Calvário (“Amigos, Amor, Amizade”).

Campo Mourão é uma cidade pacata, de gente boa e simpática. Chamou-nos a atenção o fato de todos os pombos, os cães, os sapatos das pessoas, os pneus de carros, a crina dos cavalos, os telhados e as calçadas coloridos em tom vermelho, resultado da poeira da terra vermelha que predomina a região. Voltamos para o hotel. A fome bateu, não havia jantar no hotel. Resolvemos comer uma pizza no único restaurante aberto na cidade, pois já eram 21 horas e o povo de lá já estava no quinto sono.

Nas cidades do interior do Brasil, é comum encontrar figuras típicas, algumas que nos causam tristeza, como os bêbados, frequentemente conhecidos por apelidos como pudim de pinga, pau d’água etc. Inclusive, havia um desses na porta do restaurante onde jantávamos. Bebum xereta, estranhamente em silêncio, olhava da calçada para os barulhentos visitantes. Registre-se que o pobre homem não molestava ninguém, apenas observava o movimento. No segundo pedaço de pizza, uma paroquiana sentada próxima à porta da pizzaria gritou: “Roubaram a minha bolsa!”.

Bem neste momento o tal homem bêbado saiu correndo capengando em curvas. Só podia ter sido ele, por que sairia correndo?

Fomos atrás do homem que mal podia ficar arribado, o agarramos e quase quebramos o braço do pobre ao segurá-lo.

“Onde esta a bolsa?” perguntamos, e ele: “não conto”.
Dei-lhe um tranco e voltei a perguntar: “Onde você colocou a bolsa?”
E o homem ainda mais assustado insistia: “não conto”.

Já estávamos a ponto de dar-lhe um safanão quando o esposo da dona da bolsa chegou do hotel a passos largos, avisando: “Aqui está a bolsa, minha esposa deixou-a no balcão da portaria”.

Soltamos o homem rapidamente, ajeitamos o seu paletó, recolocamos o roto chapéu em sua cabeça, pedimos desculpas, lamentamos o ocorrido, oferecemos que participasse de nosso jantar. Um vexame!

Cada vez mais confuso, evidentemente ele não aceitou jantar, na verdade ele queria mesmo, como um corisco, se livrar dos dois malucos que lhe torciam o braço.

Provavelmente o pobre ébrio, depois do ocorrido, acelerou os cambaleantes passos rua abaixo e imagino o que devia estar pensando:

“Desta me safei, bem que me falaram, em São Paulo só tem ladrão, se o cara que chegou correndo não oferecesse a sua bolsa para os ladrões, eles iriam me surrar e levar a minha carteira!“