Testemunhos › 20/03/2012

Nada é por acaso

Rousseau (1712-1778) dizia que: “Compaixão é um sentimento natural que, por moderar a violência do amor a si mesmo no indivíduo, contribui para a preservação de toda a espécie. É a compaixão que nos impele, sem refletir, a levar alívio aos que sofrem”. Sempre achei que o passado deve permanecer no passado, e que Deus deposita 24 horas diárias de presente a cada um de nós, para serem “bem vividas”. De repente, me surpreendi com o pedido de nosso querido Serginho Andreucci para fazer o comentário de um e-mail sobre “O aborto” em que é dada ênfase em como o bebê pensa e sente quando é concebido; pois até então, sempre estivemos acostumados a leituras e opiniões de adultos. Vou contar um pouco a minha história: Comecei a namorar meu marido com 13 anos, quando casamos eu tinha 19, ele 22 e uma vida toda pela frente.

Tínhamos muitos planos, entre eles, o de terminarmos de cursar a faculdade, eu poder arrumar um bom emprego dentro da minha área e comprarmos uma casa. Isso significava que iríamos adiar a vinda de filhos por dois ou três anos, até que nossa vida estivesse bem estruturada para tal. Quando fui fazer meu exame pré-nupcial, fui informada pelo médico que não poderia tomar pílula anticoncepcional porque tomava barbitúricos e a combinação com hormônios não era boa, uma vez que era portadora de disritmia cerebral, o que no decorrer dos anos, gerou a epilepsia atual. Por falta de conhecimento e planejamento, logo que casamos, engravidei. Tivemos uma linda menininha, mas logo o pesadelo recomeçou, (já que os homens 30 anos atrás, não aceitavam a hipótese de usar alguns métodos contraceptivos) tinha pavor de engravidar novamente e foi numa das visitas ao meu ginecologista que ele aconselhou-me a colocar o DIU (dispositivo intra-uterino). Garantiu-me que não era prejudicial à minha saúde, e eu não corria risco nenhum de engravidar porque era muito seguro e, sobretudo que não era um dispositivo abortivo, e 99% das mulheres não engravidavam. Só tinha uma coisa: era muito caro! Coloquei o DIU após muitas discussões, pegamos nossas poucas economias que eram para juntar para dar de entrada numa casa. Pensei que estava colocando fim nas brigas e no pesadelo de voltar a engravidar. Filhos eu os queria, pelo menos mais um, mas bem lá pela frente. Já tinha nossa menininha sem desejar naquele momento, mas recebida com muito amor e sabemos também que é preciso trabalhar e ganhar para poder oferecer-lhes o melhor. Tinha passado aquele ano planejando minha vida, a partir do ano seguinte, havia “destrancado” minha matrícula na faculdade, ia voltar à vida acadêmica, nossa filha ia completar um ano e tínhamos conseguido comprar nossa casinha.

Meu Deus, como eu estava feliz! Nossa filha fez um ano em setembro, e em dezembro um pouco antes do natal passei mal, fui ao hospital e lembro-me que tive uma queda brusca de pressão arterial com uma “cólica estranha” seguida de hemorragia, o que já estava ocorrendo nos últimos meses. A possibilidade de ficar grávida era um pesadelo e quando o médico fez uma ultrassonografria e confirmou que eu estava no 3º mês de gestação e que todo aquele tempo eu estava tendo hemorragias, fez-me desesperar.

Quando vi aquela minúscula “bolinha” (coraçãozinho) batendo sem parar e o médico pôs o estetoscópio em meu ouvido para ouvir seu coraçãozinho, chorei, chorei muito e choro até hoje quando me lembro. No hospital fui informada que tinha que ficar internada porque havia perdido muito líquido amniótico, precisava tomar remédios endovenosos, repouso absoluto e que o bebê resistia bravamente. Teve um outro médico que disse que eu não estava esperando um bebê, estava esperando um guerreiro que lutava com muitas situações adversas, mas queria viver. Foram 72 horas de oração e remorso com choro compulsivo, eu não queria engravidar, mas jamais desejei matar o bebê. Pedi mil vezes perdão. Tinha saudade também da minha filhinha, só tinha 1 aninho, era muito pequena. Foi uma gravidez difícil, voltei mais duas vezes para o hospital e na última foi feita uma intervenção cirúrgica chamada “cerclagem” (técnica que consiste em suturar o colo uterino), nem sei se isso existe hoje em dia. Foi aí que um dos médicos especialista em crianças neonatal (prematuras), veio me dar uma notícia que tenho certeza que Nossa Senhora me deu forças para eu ser firme até o fim. Disse-me ele que havia feito exames através do líquido amniótico e pelo histórico da minha gravidez, por ter perdido muito líquido e mais uma série de outros fatores meu bebê corria o risco de nascer com microcefalia, tudo o que eu entendi é que tinha havido alterações de insuficiência vascular cerebral de origem de irrigação placentária, ou seja, meu bebê teria deficiência mental.

Chorei, como chorei. Rezei, rezei muito, me sentia suja, indigna, monstruosa, covarde… E nas conversas que tive com Nª Sª pedia: Minha Mãe, Mãe de Jesus, não me desampare, peça para seu filho Jesus me ajudar a ser bem forte e para Deus nosso Pai ter misericórdia do meu bebê, sei que Deus não dá a nenhum filho uma cruz maior que possa carregar, peço-lhe perdão eu só não queria engravidar nesse momento, mas jamais quis abortar. O meu bebê está aqui e prometo que eu cuidarei e o amarei igual a nossa filhinha. Peço-lhe apenas forças e coragem. Em Junho nosso bebê nasceu. Teve dificuldade para respirar, precisou de oxigênio, APGAR baixo e tantos outros fatores para deixar qualquer mãe apreensiva. E eu continuava rezando. Os anos foram passando e seu crescimento foi sempre adequado ao seu desenvolvimento. E eu rezando e agradecendo. Nossa filha tinha acabado de completar 3 anos e nosso filho 2, tive problemas ocorridos por endometriose que resultou numa hesterectomia total, não permitindo nunca mais engravidar. Quando nosso filho entrou na Escola de Educação Infantil, com 05 anos, apresentou um pouco de dificuldade na linguagem e no discernimento em jogos mais complexos, histórias muito longas. Fez tratamento com foniatra, psicólogo da educação (o que hoje é desempenhado pelos psicopedagogos). No pré-primário, uma professora o encaminhou a uma psicóloga com suspeita de dislexia e déficit de atenção. Passou por diversos testes e foram descartadas essas hipóteses. E eu continuava rezando e agradecendo. É bem verdade, que sua maturidade para estudar veio mais tarde, e foi muito difícil convencê-lo estudar. Lembro-me bem que quando ia dar banho nele para levá-lo à escola ele começava a chorar e dizia: mamãe eu não quero ir mais à escola porque lá só tem que “esclever, esclever, esclever… não pode mais nem blincar no paiquinho”. Após esses episódios, nunca mais ele apresentou qualquer problema cognitivo, muito pelo contrário! Meu filho era uma criança normal! Quando ele fez 7 anos ele começou a apresentar “síndrome de pânico” passou a ter medo, mas um medo específico: medo de me perder, não queria ficar longe, não ficava com ninguém, tinha medo que eu morresse (me confessava sussurrando que não era covarde, quando a irmã zombava).

Começou a fazer psicoterapia, e guardo ainda alguns dos desenhos que ele fez e que após isso eu NUNCA MAIS duvidei da MISERICÓRDIA DE DEUS.

Resumo simploriamente o que me foi passado na época. Numa das sessões foi pedido ao meu filho para que ele desenhasse (após ter sido narrado uma história) um desenho livre, já que ele era semi-alfabetizado e não conseguiria escrever. Ele desenhou um bebê chorando dentro de um bercinho em pé com os bracinhos esticados (pedindo para alguém carregar), num quarto escuro (pintou tudo de preto). O psicólogo me explicou que meu filho era uma criança muito apegada a mim, (e também muito sofrida) que inconscientemente ele fazia tudo para me agradar, para não me deixar triste, para não me decepcionar, era como se ele tivesse dizendo em cada atitude que valeu a pena eu ter permitido que ele nascesse, e que por isso ele não me faria sofrer, só iria me fazer feliz… Disse que esse pensamento do meu filho era gritante inclusive nas suas atitudes. Eu não havia contado nada a ele da minha gestação! Sempre fui muito exigente com os dois. Nunca ficaram de exame no ensino fundamental, no médio ou na faculdade. Continuo rezando e agradecendo. Preciso enfatizar que durante todo o tempo tive apoio incondicional de meu marido.

Hoje sei que temos duas bênçãos: uma médica e um engenheiro! Será possível, que alguém ainda duvide que os bebês enquanto são gerados sentem e têm consciência de tudo o que se passa? Afinal de contas o que é que nos difere dos animais? Somos mesmos providos de inteligência e sentimentos?

Por Silvia Maria